sábado, 30 de maio de 2009

Resposta à carta do Luciano Pires (2)

Essa questão da "dureza" da Dilma é realmente um assunto que deveria ser melhor discutido.
Mas eu estenderia a discussão, apenas usando a Dilma como ponto de partida, para todas as mulheres que no mercado de trabalho querem passar a imagem de duronas, de poderosas, de infalíveis, etc, etc, etc (3 etc mesmo).

A meu ver isso aconteceu por caírem na esparrela da "libertação feminina" dos anos 60.
As mulheres não ficaram "livres" a partir de então. As mulheres vinham conquistando espaço como pessoas (que são) lentamente, em uma virada de atitude da sociedade a partir da segunda guerra. "Conquistaram" postos de trabalho típicamente masculinos no tal do esforço guerra. Daí pra frente o movimento só fez crescer, até queimarem sutiãs em praça pública (minha esposa diz que fizeram isso pra poder comprar modelos novos). Desde então elas sabiam e provaram que eram capazes de trabalharem e de chefiarem, mas aí, o que aconteceu?

Ao invés das mulheres liderarem usando sua feminilidade, não, optaram por chefiar usando o modelo masculino. Colocaram calças, terninhos e se comportavam como homens. Estou sendo machista, mas não por usarem calças, mas por se comportarem da maneira errada que a maioria dos homens se comporta.

Qual foi a atitude de Tancredo quando esteve doente? Preciso repetir? Acho que não.
Steve Jobs (da Apple) está licenciado porque está tratando um cancer. Está errado?
Tancredo foi "macho", Steve está sendo "feminino".
Tancredo errou. Steve está certo.

O que é mais importante agora, os compromissos ou a saúde?

As pessoas tem a necessidade de passar a imagem de que são fortes, de que nada as atinge. Falam dos erros sempre no passado. "Só há prícipes por aqui?" perguntaria Fernando Pessoa no Poema em Linha Reta.

Parece que todos são perfeitos e só eu sou o imperfeito? Todos são fantásticos em tudo o que fazem e só eu sou "razoável"? Sempre todos tiveram forças para superar os obstáculos mais difíceies e só eu quase desisti?

Lamento dizer mas agora são eles (ou vocês?) que estão errados.

No momento da doença é hora de parar e refletir.

Dilma quer ser candidata a presidente. Tudo bem. Ambição é como água benta (diria minha avó) "cada um toma quanto aguenta", mas posar de forte, de imbatível, de super... tem algo errado aí. Se até então ela até tinha minha simpatia, agora só posso lamentar que ela esteja se sujeitando ao seu total abandono. As pessoas não sabem mais o que é refletir. Acham que é o que acontece quando ficam em frente a um espelho, esquecendo que é bem parecido com meditar.
Dilma deveria refletir sobre sua atual situação e não dar ouvidos ao amigo barbudo que pouco pensa antes de falar e que duvido, reflita sobre seus atos da maneira como se deve.

O mundo está muito sem noção e as mulheres, que sempre moldaram o mundo com suas posições - fossem quais fossem - influenciando as novas gerações que tinham o privilégio de serem educadas por elas, agora abandonam tudo por um momento fugaz. Cinco anos de mandato acabam logo. A vida como foi vivida fica para sempre.

Forte abraço

Esse texto é em homenagem às grandes mulheres que inflenciaram muitas gerações e já não estão entre nós: Ophelia Puccio, Myrian Saba e Ana Violeta Durão. Minha bisavó e minhas avós, respectivamente.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Luciano Pires - O Compromisso

O COMPROMISSO

Quando eu era criança meu pai sempre me incomodava com um maroto dilema ético. Ele perguntava se eu preferia ser um herói morto ou um
covarde vivo. E eu, voluntarioso, respondia:
- Herói morto!
Lembrei dessa história quando vi a foto de Dilma Roussef segurando a peruca que o vento estava levando, lá na base aérea de Brasília.
Peruca? É. A candidata tem um câncer e está fazendo quimioterapia, que derruba os cabelos. Raspou a cabeça e agora anda de peruca. Uns
fingem que não vêem, outros vêem e ficam constrangidos e alguns fotografam. Uns publicam e não dizem nada. Outros publicam e dizem de forma
oblíqua. E há também os que publicam e dizem.
Se quem diz é do partido dela ou da base de apoio, tudo bem. Mas se quem diz é da oposição...
E eu não sei o que dizer. Estou perplexo.
A mulher está com câncer, pô! Cân-cer! Sabe o que é isso? Câncer é uma doença terrível. É uma neoplasia, o crescimento anormal e sem
controle das células.
Mesmo com todo avanço da medicina, o câncer ainda mata. E muito. E quem está em tratamento tem que ficar em resguardo, descansando. E se
está fazendo quimioterapia, então, é resguardo duplo. Triplo. A quimioterapia derruba as defesas naturais e qualquer resfriadinho pode virar
uma pneumonia mortal. Câncer mata.

A vida toda ouvi a palavra "câncer" com um misto de mistério e medo. Afinal, uma afirmação como "fulano está com câncer" nunca foi uma
constatação. Sempre foi uma condenação. O peso dessa palavra é imenso, só atenuado quando lembramos que em outros países lusófonos o nome é
"cancro". Mas deixando as questões semânticas pra lá, câncer ou cancro matam!
Então o que é que essa mulher está fazendo no evento, na inauguração, na reunião? Que força a leva a abandonar o resguardo? Será uma
grandeza de alma? Vocação para o sacrifício? Sede de poder? Talvez insistência dos colegas de partido e dos marqueteiros? Ou uma doentia
necessidade de cumprir compromissos? Quem sabe a perspectiva de vencer mais uma batalha? Vencendo, a guerreira fica ainda mais forte?

A ministra assumiu um compromisso com o partido, com o presidente e com o Brasil. Um compromisso importante, de trabalhar para garantir a
sucessão de Lula e a continuidade do projeto político do PT. É um compromisso sério, a ponto de levá-la a mudar de comportamento, modo de
vestir e até de rosto. Mas tem que haver um limite.

Então faço aqui um apelo. Presidente, por favor, manda a Dilma pra casa. Manda que ela fique lá, quietinha, nanando, tomando um chazinho e
vencendo a doença. Todo mundo vai entender e apoiar sua atitude. Presidente, se o senhor não mandar a ministra pra casa e a coisa se
complicar a culpa será sua! Sei que a ministra é durona, mas se ela teimar peça para alguém da família - a filha, quem sabe? - chamá-la e
repetir a frase inesquecível de Roberto Jefferson:

- Sai daí Dilma. Sai daí logo, antes que você faça réu um homem inocente, o presidente Lula!

E agora é pra Ministra: Dona Dilma, faça uma reflexão. Seu compromisso é importante, mas não justifica que sua saúde seja usada como mais um
componente da equação política. Nenhum compromisso é mais urgente que tratar aquilo que pode matar a senhora. Recolher-se neste momento não
é covardia. É um ato de amor próprio do qual a senhora sairá como covarde viva apenas para quem a está usando.
Para os outros, será uma heroína viva..

Primeiro a vida, ministra. Depois a política.

Luciano Pires
www.lucianopires.com.br

domingo, 24 de maio de 2009

Zé Rodrix (RIP)

"O corpo do cantor Zé Rodrix foi cremado no início da tarde deste sábado (23) no Cemitério da Vila Alpina, na Zona Leste de São Paulo. O compositor de "Casa no campo" (sucesso de Elis Regina) morreu na noite desta quinta-feira (21), na capital paulista, devido a um infarto agudo no miocárdio."

Não conheci o Zé Rodrix, mas estive com ele algumas vezes. Nada me credencia pra falar sobre ele como pessoa. Também não sei falar sobre o artista, porque como falei pra ele, está tudo muito mais no subconsciente do que no próprio consciente.

Uma semana antes dele passar pro outro lado, trocamos emails. Não sabia que seriam os últimos e nossa expectativas era de que seriam como uma volta. E foram. Voltamos ao começo. Ele e eu, de maneiras completamente diferentes e nada como os planos que traçávamos.

Não vou filosofar nem enveredar por caminhos que o meu amigo Lázaro navega tão bem. Posso falar apenas daquilo que sinto no coração. Estive com o Zé e com um grande amigo dele (agora estão juntos) o Tico Terpins em uma ida minha a SP. Foi um encontro intenso e nada tenso. Eles eram figuras muito fortes. Isso me marcou. Gostava daquelas "bobagens" que ele cantava com cara de inconsequente, fazendo tipo no programa do Chacrinha. Entendia as entrelinhas, mas não conhecia o Zé.

Nunca sentei com ele numa mesa de bar pra falar sobre qualquer coisa, menos música e ocultismo, ou sentei na sala dele pra falar sobre os musicismos e música. Não conheci o Zé, mas sentei no estúdio dele (com o Tico) pra conversar sobre música e aprendi algumas coisas. Não conheci o Zé, mas as coisas que aprendi ali, foram usadas e transformadas, como todo bom aluno deve fazer, e utilizadas como base de coisas que me acompanham até hoje.

Não conheci o Zé, mas trocava emails regularmente com ele, a ponto dele ter uma pasta especial no meu servidor de email, como faço com os amigos que conheço. Falávamos sobre coisas que não faziam o menor sentido, ou não. Parecia papo de buteco, como falei no derradeiro email, que não sabia ser o último.

Não conhecia o Zé, mas conhecia parte de seu som, parte de sua música e parte do que ele me deixava ver. Mesmo juntando as partes e achando algo maior que o todo... eu não conhecia o Zé.

Fico feliz que ele tenha ido como foi. Não era como pensavam que ele iria. Saiu com calma, do meio da família, num dia comum como uma pessoa comum.
No final, será que alguém conhecia o Zé?

Com certeza eu não o conhecia, mas terei saudades desse putinildo.


Mais informações no site do Globo:

segunda-feira, 9 de março de 2009

Resposta à carta do Luciano Pires

Para ler a carta, você pode ir ao site dele aqui ou na postagem anterior a esta. Se já fez isso, pronto ou não aqui vou eu!

Falou "arquiteto" (com ou sem aspas)... me chamou. :-)

Faz muito tempo que esse país matou os "arquitetos". Alguns anos atrás, comentei sobre o texto de um amigo "Morte aos Arquitetos", que eles precisavam descer dos seus pedestais e parar de tentar valorizar a profissão, porque havia apenas uma valorização do próprio ego. Tratávamos ali de arquitetos (sem aspas). Aqui no teu texto, a constatação de que há muitos anos eles (com aspas) já foram mortos.Há quantos anos atrás o BNH acabou? (novembro de 1986 pra quem não foi dessa época)

O que o governo Lula está propondo agora? (criar novamente o BNH).
"Porque acabou" já não cabe mais em discussão, mas o que aconteceu com o fim dele está claro. A população cresceu e as cidades incharam, sem política alguma de criar residências para os que necessitam. Residências implicam em saneamento básico, algo inexistente em muitas comunidades, como gostam de chamar as favelas.

No meio do esgoto e sem saúde, a população que só faz crescer, sequer é inserida no mercado de trabalho, ficando à margem e como tal, marginais, capazes de atos obtusos.

Pior do que uma manada, são várias delas e, uma dentro da outra. A manada X contra a manda Y. A manada externa contra a manada interna. Aonde iremos chegar é conversa pra antropologistas.

Mas será que as manadas tem líders? Se a manada está subdividida, posso crer que alguns dos pequenos grupos tenham líderes, mas quanto maior ele se torna, mais distante fica do líder original e este mais distante do todo e por mais que se auto-intitule como líder, sua liderança não só é contestada, mas realmente ignorada, no melhor sentido da palavra, aquele que subtrai o conhecimento.

O que é uma manda sem líder (se é que existe tal coisa no reino animal)?
Retornamos ao exemplo do Luciano: "raciocinar mal com dados falsos".
Nossa capacidade de raciocínio está cada vez mais prejudicada. E um exemplo são as Wiki. Eu conheço o Luciano Pires há algum tempo e de certa forma sei o que esperar dele, incluindo aí o inesperado, mas não conheço o John Doe. Devo acreditar em uma informação que ele forneça? Devo acreditar que ele é capaz de discernir sobre alguma coisa que eu mesmo não conheça? Enfim, posso confiar em John Doe?

Cada vez mais querem nos fazer crer que estar "publicado" na internet já é suficiente para que seja verdade.
Cada vez mais, alguns animais da nossa manada nos querem fazer crer que aquilo é inteligência.
Cada vez mais nos querem fazer crer que eles são mais inteligentes do que nós.

Mas como eles querem fazer isso se simplesmente não nos conhecem?
Porque assim é na manada. Olhar em volta e não se identificar com o que vê, reforça o sentimento de não sermos tão burros quanto a soma de todos nós.

Certa vez fui apresentado a um novo chefe. Depois do discurso habitual, permitiram que fizéssemos perguntas. Levantei meu braço e perguntei: "Quem é você para ser nosso chefe?" Tentei fazer com que a pergunta soasse o menos agressiva possível, mas jamais imaginaria que não fosse respondida. Ele não sabia responder. Porque a inversão da pergunta: "Porque devo contratar você?" soa tão agressiva? Os líderes não estão acostumados a serem questionados. Eles são alçados ao poder, perdão, alçados ao cargo para executar uma estratégia sem objetivos, como se houvesse um poder divino a guiar o líder máximo. E chegamos ao final da estrada de tijolos dourados e ao próprio Mágico de Oz. Não há líder divino e o superior responde ao superior que responde (muitas vezes) a um anão da câmara, a alguém do chamado baixo clero, a um corrupto, a um ladrão... esses são nossos líderes?

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Carta do Luciano Pires (1)

Esse foi o conteúdo do que ele me enviou em 06/março. Você pode encontar a versão original no site dele: http://www.lucianopires.com.br/idealbb/view.asp?topicID=10515&pageNo=1&num=

[abre aspas]
"Othon Moacyr Garcia foi um filólogo, lingüista, ensaísta e crítico literário brasileiro. Em um de seus trabalhos escreveu que "ainda que cometamos um número infinito de erros, só há, na verdade, do ponto de vista lógico duas maneiras de errar: erramos raciocinando mal com dados corretos ou raciocinando bem com dados falsos.”Vivemos numa sociedade em que a maior fonte de informação é a mídia que apresenta os dados superficialmente, conforme seus interesses. Fiar-se numa fonte assim é um risco.

Por outro lado a capacidade intelectual da sociedade tem sido reduzida num processo de emburrecimento infinito. Vivemos cada vez mais numa manada, copiando as decisões que o bovino ao lado tomou.

Surge então uma terceira maneira na equação de Othon Garcia: raciocinar mal com dados falsos...

Dentro da manada fazemos perguntas erradas, recebemos respostas erradas, realizamos diagnósticos errados e tomamos as ações erradas. Some-se a isso um altíssimo grau de cagaço e pronto! Olhe em volta!Um amigo foi comprar um automóvel. Um Ford KA. Na concessionária, a informação: 45 dias para entrega. Não tem carro em estoque...

A Volkswagen, que no fim de 2008 cancelou o pagamento de horas-extras e concedeu férias coletivas escalonadas para seus 22 mil empregados, vai convocar sete mil funcionários para turno extra de trabalho no final de semana. Ela precisa adequar o volume de produção à demanda, que cresceu rapidamente. A situação nas demais montadoras não é diferente: ou você se adapta ao que tem na concessionária ou espera até sessenta dias.

Enquanto isso o segmento de carros importados ri à toa: saltou de 13,2% de participação de mercado em novembro para quase 20% em janeiro.

Se tudo andar mal com a indústria automotiva brasileira, voltaremos em 2009 aos patamares de 2007... Que foi simplesmente o segundo melhor ano da história dessa indústria no Brasil.

Que raio de crise é essa?
É a crise do pensamento estratégico, que morreu. Só restou o tático. Típico de manadas.

Deixe-me esclarecer com um exemplo simples: um arquiteto desenha um prédio maluco. É preciso que um engenheiro faça os cálculos estruturais para o prédio ficar em pé. E então os pedreiros erguem o edifício conforme os planos.

A visão (objetivo) do arquiteto é sustentada pela técnica (estratégia) do engenheiro que é tornada realidade pela execução (tática) dos pedreiros. Estratégia sem objetivo é desperdício. Execução sem estratégia é um desastre. O muro ficará torto e o prédio vai cair. E, se não cair, provavelmente terá custado infinitamente mais do que se seguisse uma estratégia.

A miséria intelectual, a asinidade estratégica e a vida em manada acabaram com os “arquitetos” na virada do milênio. E agora o cenário de crise está acabando com os “engenheiros”. Só restam “mestres de obra” e “pedreiros”. Atenção para as aspas, por favor.

Decisões? Só para curto prazo, para coisas que podem ser medidas e vistas. E dá-lhe simplismo. Tem que reduzir custo? Mande o povo embora. Corte os investimentos em comunicação. Transfira o poder para o departamento de compras, que vai escolher o mais baratinho. Deixe o dinheiro no banco que é mais seguro...Infelizmente ninguém jamais medirá o custo dessas decisões. Eles não cabem numa planilha. E se coubessem a manada não entenderia.

Pois alguém já disse que “nenhum de nós é tão burro quanto a soma de todos nós.”

Nunca na história deste país vi uma verdade mais absoluta.
Luciano Pires "
[fecha aspas]

Aguardem a "resposta".

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Fim de ano

(carta a um velho amigo de longa data)
Oi Sérgio

Uma das melhores coisas neste ano de 2008 foi te reencontrar ali na rua meio que "por acaso".
Foram quantos anos?
Nas minhas pobres contas algo em torno de uns 12. Boa idade para um uísque e por que não para velhos amigos?
Não por acaso, estive com o Paulo ontem e ele perguntou por vc.
Foi cheio de orgulho (sorry não sou perfeito) que falei que havíamos nos encontrado.
Tudo bem que ainda falta aquele almoço, mas seriam muitas emoções para o mesmo ano.
O que faltou? Vc sabe bem... achar o João.
Isso pode ter um jeito no ano que vai entrar e ficam as esperanças renovadas de encontrar, não só ele, mas todos os amigos (tem o Renato, o Borracha, o "Lisboa à Noite", o "Manto Amarelo", o Fernando, o Ayrton, e tantos outros).
Caríssimo, tudo de bom pra vc e pra toda a família, incluindo até seu irmão que não responde a emails (novidade seria ele responder de pronto).
Antes que comecem os fogos e antes que espoquem os "espumantes" (será que ninguém mais toma champagne, ou é um jeito de incluir aí a velha Cidra Cereser?) me despeço com um forte abraço.
Nos veremos em 2009 com toda certeza.
do sempre amigo
Alex

sábado, 20 de dezembro de 2008

O Schiavon não lembra de mim

(Dedicado aos poucos que vão entender o porque de tudo isso)

O Schiavon não lembra de mim, mas eu tb não lembro dele. Foi precisamente, mais ou menos em 1981. Ou seria 1992?. Bem, foi exatamente por aí que nós não nos encontramos. Foi bem ali, ou pelo menos quase lá. Ele estava para um lado e eu estava para o outro. Parecendo aquele caso que não tive com a Bioncê, ou o que não tive com a Gisele (qualquer uma delas). Não importa, seja como for, foi. Só não posso dizer que foi alguma coisa, pq nunca foi nada. Mas se tivesse sido, talvez fosse menos ainda. Lembro como se fosse ontem. O Zé (Rodrix) apareceu, participou e foi uma confusão danada. Talvez por isso o Corciolli fique tão quietinho. Talvez pelo mesmo motivo o Paccini nunca poste nada, o Pakito, o Fabio Ribeiro, o Labolita, o Reinaldo Theremin, o Gilberto Strapazon, o Lázaro e tantos outros mais famosos. Fama. Ah... a fama. Só isso já daria uma vida. De fato, muitas vidas se deram pela fama. Mas será que foram vividas? Sei que foi sem nunca ter sido e quando vimos, não era nada mesmo, só um carro que passou com o escapamento aberto.

sábado, 8 de novembro de 2008

Teoria x prática

"Outra dúvida: como se toca um insturmento sem teoria? Bem ou mal, eu fazia uma pentatônica no baixo ou algo que o valha, mas muito limitado.
Abs,

Pedro"

Oi Pedro
A sua pergunta é curiosa. De fato, não se toca. Por outro lado, a teoria é implícita.

A pessoa não sabe se a escala que ele faz é pentatônica, mixolídica ou propaloxitôna, mas encaixa e ele vai em frente. Uma piadinha velha:

"Em uma banda, o tecladista fala pro guitarrista:
- Toca um Fmj79.
O guitarrista vira pro baixista e diz:
- É um Fmj
O baixista olha pro baterista e fala:
- Leva um blues
O baterista fala percussionista:
- Toca qualquer coisa"

Na piada, quando o baterista fala pro percussionista "toca qualquer coisa", está implícito o preconceito na cultura ocidental à falta de formação teórica dos percussionistas. Pegue um percussionista indiano, por exemplo, e vc vai ver que o cara toca vários instrumentos e tem anos de estudo.

Quando vc escreve uma partitura só de acordes pra um guitarrista (por exemplo) é necessário que ele saiba ler isso, o que é um conhecimento implícito da teoria. Ele pode não saber o que está por trás, mas faz.

Um cara que não lê partitura (além do Paco de Lucia e outros) e não conhece os acordes do piano é o Peter Gabriel. A Rachel Z, pianista de jazz que foi tecladista dele na temporada do ano passado, contou em entrevista à Downbeat, que o PG não sabe que acorde ele fêz/faz no piano, ele apenas faz. Quando ela foi aprender as músicas dele (palavras dela) deparou-se com harmonias (acordes) complexos. O cara fez isso sem o conhecimento teórico da teoria (dá-lhe pleonasmo! - ou seria redundância?). Isso é muito comum.

O Pat Metheny falou certa vez, em entrevista à Guitar Player, que a teoria é fundamental, mas que é necessário esquecer dela na hora de tocar, senão - palavras dele - a emoção não flui.
Seria como a gramática. Pode-se conhecê-la (já viram que passei a enfeitar o pavão) mas na hora de falar, ninguém fica pensando ou analisando seu próprio discurso. Faz-se no escrito, mas não no falado. Compor seria o escrito e tocar/improvisar seria o falado.

Tem ainda um conselho do Charlie Parker, onde ele diz que se vc errar uma vez, repita outra vez e depois de novo "Assim vão pensar que era isso mesmo o que vc queria". Sábio conselho que funciona bastante. Em vários improvisos, vc pode sair entortando a idéia original até um ponto em que as coisas soam não só estranhas, mas erradas, mas a persistência naquela frase, leva o ouvinte a acreditar no que vc toca.

Levei muito anos ouvindo um solo de John Tropea na versão de Also Sprach Zarathustra do Eumir Deodato até saber que ali estava uma bela pentatônica, uma boa saída pra quando não se tem uma idéia melhor, mas que ali era colocada de forma precisa.

Até a próxima

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Aprendizado

Sempre que encontro um estudante, noto que a expectativa dele é de aprender alguma coisa comigo.Eu sou o professor, sou o cara experiente, sou o bãbãbã, pós graduado, pós mestrado, pós doutorado, etc. Legal, bacana ser reconhecido, mas esse mesmo estudante (na sua maioria jovem) não percebe que a expectativa é recíproca, o quanto eu espero aprender com ele.



Cada pergunta "idiota" dele é um descortinar de novas opções pra mim.Quando ele (tem coragem e) pergunta: "Por que?" eu me vejo tendo que buscar lá atrás, em algum lugar escondido da minha cabeça, por coisas que nem lembrava que estavam ali, mas no final, me renovo. Saio do encontro com algumas dúvidas. E nada melhor do que ter dúvidas pra evoluir, pra crescer. Não é o fato de já ter passado por tanta coisa nessa vida, que fará com que me torne insensível ao começo dos outros.


Alguém por aí falou dos que buzinam atrás de carro de auto-escola, esquecenodo que um dia passaram por isso. Os apressados, que nunca aprenderam e não aprenderão, são os que buzinam, os que se irritam. Aqueles que aprendem e aprenderam e continuarão aprendendo, são os que ao verem um carro de auto-escola, se afastam, já antecipando (por experiência própria) o que aquele motorista poderá fazer.


Quem já deu aula de qualquer coisa, sabe que existem estudantes diferentes. Tem os interessados e os não interessados. No primeiro grupo tem os sinceros e os exibidos. Tem exibido que gosta de aparecer com a ignorância e sincero que é ignorante. Vejam bem, quem ignora, não sabe pq não conhece. Portanto se alguém pede alguma coisa pra estudar, vamos negar? Se o ignorante está no esforço de captar conhecimento pra transformar sua ignorância em conhecimento vamos negar?

Nunca se pode parar de aprender.

Nunca se pode achar que se é o máximo.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Premonição

O grande problema da premonição é que Hollywood se meteu no meio. Quando se tem um sentimento estranho, quando se tem uma noção ampla do universo, alguém lembra de um filme. Os filmes são ótimos, mas existem para o entretenimento e não para instruir. Isso foi há muito tempo atrás. Instrução. Acreditava-se poder adquiri-la nos filmes. Quem dera. Os filmes existem para os incrédulos, porque os crédulos sabem que nada é como nos filmes. Se o amor - teóricamente um sentimento conhecido - não acontece como nos filmes, o que dizer das coisas que estão realmente além da nossa compreensão?

Ter o dom da premonição (acho que isso é título de filme) é mais do que uma dádiva divina. É preciso saber o que fazer com isso. E acredite, não é nem um pouco fácil. Aproxima-se da loucura. A sociedade moderna acredita ter identificado a loucura. Mas se ela mesma é tida como louca, apenas segrega aqueles que não sofrem do mesmo mal que ela. Parece confuso? Com certeza. Alguém que já teve catapora, pode achar que uma alergia seja um "princípio" da mesma. É o mesmo. Estamos sempre correndo e quando vemos alguém parado, ou pior, parando, acabamos dizendo que ele está enlouquecendo, porque não está indo no mesmo ritmo que "a vida".

Me lembro de duas coisas. A primeira é a cena do filme Expresso da Meia Noite, quando o protagonista começa a caminhar na direção contrário a de todos os outros "internos", que caminham resignadamente ao redor de alguma coisa que não recordo. Este momento é o início da reação dele à sociedade que o cerca naquele momento. A outra coisa é uma frase que diz que "a barra da vida é que ela não tem meio termo".

Assim como aquele protagonista, acabamos engolidos pela realidade do que nos cerca, como se aquilo fosse o inevitável, o que estava escrito, o maktub dos meus ancestrais. Como não há meio termo, ou aceitamos essa (muitas vezes) pretensa realidade, ou caminhamos na direção contrária. Exatamente nesse momento, nos chamam de loucos e descobrimos que temos que sê-lo, exatamente para não enlouquecer.

Em um almoço de final de semana qualquer, meu pai virou pra mim e disse que eu estava com um ritmo de vida muito "louco". Eu nem pensei duas vezes antes de dizer que "a minha sanidade residia na minha loucura". Foi exatamente quando abandonei essa locura é que me aproximei da insanidade. Sinistro, não? Confuso? Nem um pouco. Releia e entenderá.

Quem venceu nessa vida, foram os que enlouqueceram. Quem vence é quem acredita que não está louco, quando todos dizem o contrário. Ne vou citar nomes, porque todos nós conhecemos várias histórias assim, mas por favor, nada de citar filmes.

Mas vencer na vida é fácil. Cada um é um vitorioso. Difícil é lidar com o sobrenatural em uma sociedade tão pretensamente lógica, tão envolvida pela "ciência da computação" como a nossa. Pensamos em computadores e desprezamos as informações que eles guardam e geram. Eu mesmo estou escrevndo isso na mesa do Deux Maggots diretamente neste blog sem ter escrito previamente (como costumo fazer) e portanto sem backup (algo que espero fazer quando chegar em casa) mas a conversa com minha esposa e o bordeaux deram a idéia pra escrever (e só faço aproveitando que ela está conversando com uma amiga), portanto me arrisco um pouco (o que não faz mal nenhum). Vejo gente mais nova nem um pouco preocupada com informação, história, até mesmo conhecimento, cultura. Sobrenatural? Nem pensar. É loucura.

Os atuais "evangélicos" fazem tudo parecer pior. É tudo preto e branco. Está-se com eles ou contra eles. Não há espaço para premonições. Talvez até não haja espaço para sentimentos, emoções. Espero estar enganado. Espero não estar "percebendo" coisas demais.

Oops, chegou meu quichê.